.Entrevista.
Poeta vira-lata
Ulisses Tavares, você certamente já ouviu falar sobre ele ou sobre algum livro dele. Ele é um dos autores mais vendidos no Brasil, com 22 milhões de exemplares, sendo que 8 milhões só de livros de poesia. Ulisses é um polígrafo com orgulho, ou seja, escreve sobre todos os gêneros, todos os assuntos, para todas as faixas etárias. Desde história em quadrinhos para adultos; livro de autoajuda comportamental, sexual, sentimental, de grande sucesso; para crianças, adolescentes, contos e poesia. Seu último lançamento, no final de 2009, foi o livro Poemas que Latem ao Coração, junto com Luisa Mell, ambos “cachorreiros” assumidos, que elegeram a causa animal como bandeira de vida e de luta.
Junto com seu english springer spaniel Ferinha Mel, Ulisses conversou com o Daqui Sumaré e você acompanha agora esse bate-papo.
Como é sua vida de criativo? Você tem horários ou acorda às duas da manhã pra escrever?
Não, isso comigo não acontece. A inspiração existe, sim, mas existe muito mais transpiração. Eu não gosto de ser metódico, mas tenho que ser. Como todo escritor profissional, acordo às 5h30 da manhã e pelo menos até perto das 10 horas eu fico só escrevendo, pesquisando pra escrever, jogando fora o que escrevi no dia anterior ou refazendo um capítulo. Senão não funciona. Um romance, por exemplo, é impossível você escrever por inspiração, depois parar, viajar e voltar depois de seis meses e pegar. Quando você volta, nem lembra mais o que estava acontecendo. Então tem que pagar o preço, tem que ter disciplina. Como sou budista praticante e faço meditação todo dia, eu me adaptei muito bem.
Como surgiu essa parceria com a Luisa Mell para esse livro?
Foi um feliz encontro de dois cachorreiros. Não criadores de cachorros. Criador vê o animal como um produto, nós não, amamos os cachorros. Eu estava assistindo um programa da Luisa, que era sobre um cachorro abandonado e que estava cheio de vermes, bicheiras, vísceras expostas e que só ela teve coragem de ir lá resgatar. Confesso que chorei quando vi isso. Meu instinto de cachorreiro veio à tona. Aí falei: preciso fazer alguma coisa também mais efetiva. Só que eu não tenho estrutura pra pegar animais nesse estado. Então eu entrei em contato com a Luisa, a partir daí nos juntamos, conseguimos a adesão da Rosa, da editora da Nova Alexandria, também apaixonada por cachorros. Começamos a agrupar pessoas que tinham alguma condição de fazer algo bacana dentro desse projeto. E saiu esse livro.
Seu envolvimento com cachorros é bem anterior, né?
É, não é uma coisa de agora. Grande parte dos meus livros tem um cachorro como personagem. Só Não Venha de Calça Branca é um livro para adolescentes. É a memória de um cachorro, o Tutty Antonio, que tem um escritor de estimação, que sou eu. É o mundo do ponto de vista do cachorro, que ele conta pra mim. Mais recentemente, lancei outro livro para crianças, Ferinha Mel, Retratos Inesquecíveis da Infância de Um Cão. Com o sucesso do livro do Tutty Antonio, comecei a receber muitos e-mails e cartinhas dos meus pequeninos leitores que reclamavam que o irmão mais velho não os deixava pegar o livro do cachorrinho. Aí eu fiz o livro que é só pra crianças.
Mas não é todo mundo que adora animais.
Tem gente que nasce pra infernizar a vida dos outros. Mas não me espanta tanto, porque num país que não cuida sequer de suas crianças abandonadas, não vai cuidar daquele que realmente não pode falar, que é o animal. Pela ordem natural das coisas, eu sou budista, temos obrigação de primeiro cuidar daquele que não pode falar. É o que Buda sempre disse: se você não é capaz de cuidar dos animais, que dependem de nós, como é que você vai cuidar de um ser humano? Você não está pronto, não tem compaixão, não tem amor. Todo mundo deveria se lembrar disso. Nós somos responsáveis.
O homem não sabe conviver com os animais...
O animal está dentro do seu ciclo de vida natural, fazendo o que sempre fez: comer, reproduzir, dormir e brincar. Sempre achei que deveríamos fazer isso e conviver entre espécies diferentes. Os animais fazem isso tranquilamente. Quando eles atacam, é simplesmente para sobreviver, para comer. Eles não vão matar mais do que eles precisam. O homem é o único que mata mais vidas do que aquelas que ele vai consumir, tanto no mundo animal como no vegetal. As pessoas precisam se conscientizar de que cachorro é igual um filho. Com uma diferença: esse filho não vai se casar nunca e nem sair de casa. Então somos responsáveis, quando adotamos um cachorro, até o final da vida. Claro que ele nos devolve isso numa quantidade muito maior de amor do que nós damos e custa um prato de comida e um cantinho pra dormir.
O tal do amor incondicional.
Eu sempre digo: por alguns quilos de ração, você tem esse amor, que não vai ter de nenhum homem, de nenhuma mulher, de nenhum filho e de nenhum amigo, mas vai ter do cachorro. E as pessoas têm que se conscientizar de que existem coisas a serem feitas que podem minorar o problema. Nós estamos com uma população canina abandonada hoje, em São Paulo, de 230 mil cães. Não são estatísticas oficiais, mas o serviço da prefeitura e o pessoal da USP é que acham isso.
E os pitbulls abandonados, qual sua opinião?
Os pitboys, babacas, pegam porque acham bonito, e aí percebem que não é um cachorro fácil de controlar, e que come, precisa de muitos cuidados, etc., então eles os abandonam. Se você for aos abrigos de cães hoje e perguntar pra qualquer funcionário ou voluntário, você vai perceber que a população de pitbulls tem aumentado muito nos últimos cinco anos. Porque as pessoas estão abandonando seus pitbulls. Com a minha experiência e pela experiência com a Luisa Mell, a gente sabe que não existe cachorro bravo nem raça feroz. Isso é um mito. Uns são mais prontos pra batalha porque foram cruzados pra isso, como o rottweiler. Mas, se ele for cuidado, ele reflete sempre o dono, essa é a regra do jogo. Estou cansado de ver pitbulls com bebês, não tem problema nenhum. Em geral, há um descuido do dono porque são raças que precisam, sim, ser adestradas, precisam de pessoas experientes desde filhotinhos, pra conter a agressividade deles. Aí essa agressividade é sublimada. A maioria adora ter um cachorro realmente feroz pra defesa, pra curtir com os amigos. É a cultura da violência no Brasil. E dá no que dá. Então primeiro é cuidar direitinho, escolher o perfil da raça mais adequada.
E por que jogar os animais na rua? Não é mais fácil deixar no Centro de Zoonoses?
Porque, não necessariamente, as pessoas têm amor por cachorro. Tem pessoas que adotam cachorro por ser moda. Basta aparecer numa novela. Vou te dar um exemplo: quando teve aquele filme dos 101 Dálmatas, as pessoas se encantaram. Isso foi mundial. No Brasil, especificamente, tem milhares de dálmatas. Mais da metade deles quando cresceram foram jogados na rua... O dálmata é lindo, fofinho, mas ele é uma peste. Ele destrói absolutamente tudo dentro de uma casa. Ele tem uma característica neurológica qualquer de ser muito agressivo com qualquer um. Ele é nervoso, agitado. Ele é mais agressivo que o pitbull e pouca gente sabe disso. Aí, quando as pessoas viram que ele era muito bonitinho, mas crescia e atacava todo mundo, destruía tudo, jogavam na rua.
E o que fazer, então?
Pra mim, as pessoas não devem comprar animal porque elas estão estimulando uma prática comercial e muita gente compra errado, porque o filhote é bonitinho, depois vai acabar jogando. Então eu recomendo: não compre, adote um vira-lata, é o melhor. O vira-lata sempre se adapta ao dono, é ultrarresistente, e é uma graça, tem um amor incondicional, se adapta a qualquer ambiente e tipo de pessoa. Tem que falar com a Luisa Mell no CEL - Casa Esperança e Liberdade para Animais Carentes, são 530 cachorros que podem ser adotados.
Como é o seu envolvimento no bairro?
Eu sou totalmente daqui. O templo que frequento é aqui perto de casa, as praças que eu passeio com os cachorros são aqui, os restaurantes também, tudo é aqui perto, porque eu também não tenho carro.
http://ulissestavares.com.br/